Bucólicas e as outras vidas que minha Anita acolhe todos os dias. 2021


Um breve trabalho-homenagem-agradecimento pela vida que vivemos juntas. Amo você, minha anjinha.

Parece que foi ontem, mas há sete meses eu perdi um dos seres mais importantes da minha vida. Dos meus 30 anos vividos, aquele foi certamente o dia mais triste que eu vivi até hoje.
Perdi minha filhinha, que não é gente, é anjo.
Com a morte da Anita - passado o primeiro momento de tristeza mais profunda, praticamente paralisante - comecei a pensar sobre as imagens de ausência, de despedida, de morte. Comecei depois a pensar nas representações dos animais de estimação dentro disso. Morrem deixando as imagens de como fizeram mais feliz a vida da casa e das pessoas que a habitam. Guardamos deles as fotografias que depois voltamos pra lembrar e mostrar a quem não teve a sorte de conhecer. Eles não deixam objetos, cartas, conversas, segredos. Não é como se daqui a 10 anos eu encontrasse (como encontrei da minha avó), alguma coisa que me fizesse descobrir algo de novo sobre a Anita, ou me fizesse lembrar de algo que já estivesse latente na memória.
Ainda me dói muito ver as fotografias (milhares, quem me conhece já pode imaginar) que fiz da Anita ao longo dos seus nove anos de vida. Mas, ao mesmo tempo, fiquei ainda pensando que ela está em muitos outros lugares para além destas imagens. Que pode não ter me deixado nada guardado pra descobrir daqui uns anos, mas que deixou outros rastros, outras formas de eu seguir me encontrando com ela.
Agora sou eu quem olha caírem as gotinhas do boxe depois do banho quente. Penso em como esse era pra ela um dos maiores entretenimentos e por um momento as coisas da vida parecem mais simples.
Apesar dos tantos lugares aconchegantes da casa a Anita e uma das irmãs sempre gostaram de sentar, uma atrás da outra, no braço direito do sofá, durante a meia hora que bate o sol direto. Eu brincava que ela ficava ali pra proteger a casa e só agora eu percebi que esse é um dos únicos lugares de onde é possível ver a casa inteira.
Pra me despedir da minha filha eu plantei uma Bouganvillea roxa com as cinzas dela. As irmãs vieram ver, curiosas.

Não quis varrer do chão as primeiras flores que caíram, eram tão bucólicas.