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Quem constrói as casas, 2020-22

Lucília com 2 anos e 7 meses:

 

- Mamãe, vamos fazer casa igual o papai?
- Eu não sei, Lucília.
- Por quê?
- Não estudei na escola que seu pai estudou? 

- É?

- Seu pai é engenheiro. Ele faz casa, sua mãe não é engenheira.
- Só homem que faz casa, não é? (ela andava observando muitas construções) 

- Não. Mulher também faz. Mulher que é engenheira.
- É?
- É.

Em algum momento a partir do ano de 1960 minha avó transcreve essa conversa que teve com minha tia Lucília. Parto dela para, junto com a minha avó, tentar responder: quem constrói as casas? Quem são, também, as engenheiras?

A casa da minha infância, foi construída pelo meu avô, Ruy, e pela minha avó Jacy, uma mulher nascida em mil novecentos e trinta, mãe de quatro filhos, doutora em Sociologia da educação, professora na Universidade Federal de Minas Gerais e autora de um material didático que, após romper com um conservadorismo que via algo de muito inovador em seu conteúdo, foi usado em quase todo o Brasil. Tanto em casa, quanto na sala de aula ela passou a vida ensinando a ouvir, contar e criar histórias.

Certa vez me disseram que o Ruy, apesar de ter sempre não apenas valorizado, mas apoiado e incentivado a carreira da esposa, uma vez perguntou: “o que são as historinhas da Jacy perto de quem constrói casas?”. Muitos anos depois, ele arrependeu da pergunta retórica que havia feito e assim expressou: “o que são as casas que eu construí perto das histórias que a Jacy criou? Estas são pra sempre, ninguém destrói”. Afinal, na casa se estabelecem também, como escreve Bachelard, os “valores de sonho, últimos valores que permanecem quando a casa já não existe mais”. Dado o entendimento tardio, o Ruy passou os últimos anos da vida tentando reeditar a Construção do Futuro (um dos livros da coleção escrita pela Jacy), tarefa que só uma verdadeira engenheira conseguiria cumprir.

A casa é o que o sujeito faz dela. Um lugar que abriga devaneios, onde se é possível sonhar em paz; um lugar cuja existência está mais nos afetos e nas estórias, que no rígido concreto. Uma casa que se transforma, fluida, tal como a memória. Depaupera-se, perde o viço, mas permanece viva porquanto haja imaginação, porquanto haja estórias e quem as possa contar.

FOTOLIVRO Quem constrói as casas

2023: Finalista - Prêmio Imaginária (2º lugar)

2022: Finalista - Prêmio Imaginária 

2021:  Finalista - Prêmio Foto em Pauta

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