Passagens, 2018/19

Construo Passagens com fotografias da Alemanha, Inglaterra e Brasil, feitas em película e processos de manipulação digital, por cerca de dois anos. As fotografias são reconstruídas através de sobreposições, apagamentos e recortes, em um processo de pensar como funciona a própria memória e a imaginação. Procuro enfatizar não apenas essas camadas, mas também a linha tênue em que se perdem e se encontram as memórias vividas e as imaginadas, onde confunde-se real e fabulação, dentro e fora, e onde um lugar público rememora também espaços mais íntimos e familiares. Escolho em primeiro lugar a película, por sua materialidade, pelo acaso, a demora e o encanto da espera e, em segundo lugar a manipulação digital que, como o nome já diz, manipula e reconstitui os acontecimentos e a própria memória. Essa manipulação não é, portanto, por mero acaso ou estética, mas por reconhecer em um tempo presente relações entre outros tempos, experiências e lugares. Uma vez que as fotografias são mescladas, é difícil pensá-las como um acontecimento de um instante único, do instante fotografado. Eu agora me lembro de quando as nuvens estavam tão baixas que era possível vê-las sobrevoando o lago Wansee e se transformaram em uma névoa que chegou na fachada da igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Da sombra da janela do meu quarto em Belo Horizonte voou um passarinho inglês que fugiu dos guindastes de Londres e tampouco encontrou uma casa nos troncos das árvores de Colônia, de onde eu via pela janela a estação de trem. Parece loucura, mas tinha um moço parado bem no meio dos trilhos e vocês vão se lembrar dele ali, mas eu ainda me lembro dele vendo passar um rio.