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Três Ranchos, 2015/19

O pequeno município de Três Ranchos, localizado no extremo sudoeste do estado de Goiás, é de origem um tanto incerta, cujo primeiro registro datado do ano de 1874 refere-se a uma fazenda de mesmo nome. De antes disso nada se sabe, mas de pouco depois, no final do século XIX, existem documentos que provam que o meu trisavô Cândido Vaz, tomou por empréstimo uma quantia em dinheiro “nos Trez Ranchos”. Certa vez em Três Ranchos, quando ainda não era cidade ou sequer distrito – e nem sequer “Três Ranchos” - o senhor Geraldo Elói, outro dos primeiros moradores da cidade, contou que seu avô havia pedido a um criado que cavalgasse até a cidade mais próxima em busca de informações acerca do dia, mês e ano em que viviam ele e seus conterrâneos.

Desde a minha infância, escutei meu pai contar os casos de Três Ranchos e se queixar da saudade que tinha de lá. Ia naturalmente configurando as estórias em imagens, com o apoio das minhas próprias vivências e recordações do lugar e das poucas fotografias do nosso acervo familiar. Em algum momento comecei a escrever, da mesma forma livre que a minha imaginação inventava essa Três Ranchos, me referenciando principalmente nos casos do meu pai, mas também em outros livros, lugares, narrativas e nas próprias visitas que fiz a partir de quando me esgotou a possibilidade de inventar novas estórias e imagens.

Foram no total quase sete anos de trabalho, desde a primeira palavra, às tantas visitas e ao longo tempo de agrupar e transformar todo o material criado e colecionado neste que eu chamo de um Romance-Folhetim. Nele, recorro às estações e seus limites tênues, a partir de memórias de um lugar que nasce sem tempo. As palavras datilografadas e as fotografias trabalham juntas para costurar esse emaranhado de estórias e imagens, rememorar lugares depauperados, pessoas mortas ou envelhecidas e causos que são lentamente esquecidos. Pensar Três Ranchos a partir de suas narrativas e imagens e não a partir de uma história “oficial” faz ser possível a suspensão desse lugar, em que as estórias do Zé e do Eci, do tio Evandro e da dona Cututa, da avó Eunice e do João do Rosário poderiam ter personagens com outros nomes, de outros contos e cantos, assim como a pequena cidade de Três Ranchos. No romance-folhetim de Três Ranchos, os arquivos colecionados ao longo dos anos são ordenados e sobrepostos a partir da poética, sem uma preocupação em apresentar a História do lugar, mas de despertar afeto e nostalgia. A partir do momento em que me permito recriar e reinventar estórias e personagens, permito-me também repensar a própria estética e formatação de um folhetim, que tradicionalmente traz dia, mês e ano, dos quais ainda busca o criado do senhor Elói, por aí cavalgando.